Yeatman 702

Em frente à curva do rio, descendo a estrada, imediatamente antes da tangente imaginária cortar a linha de vista com todos os passados, girávamos apertadamente à direita até atingir o pátio largo, atapetado de granito, que nos levava à casa grande. 

Nesses sete pisos — dois acima no solo e cinco enterrados nos socalcos da margem escarpada do rio — contavam-se inúmeros quartos, salas e outras divisões que se dispunham harmoniosamente como um Chanukiá invertido, quase ajoelhado noutra fé.  

Como impossíveis velas que ardem sem fim, desenhando preces na água corrente, em cada um desses quartos rasgavam-se numa das paredes as mais belas janelas que qualquer vista podia, dali, alcançar.

Descendo ao terceiro piso, o primeiro debaixo do solo, perdíamos nossos passos rodando sempre à direita — em conta ímpar e também perfeita — até atingirmos, no extremo do candelabro, o número 702. 

Era nesse quarto, o mais próximo da ponte, mais chegado ao zimbório e com a melhor vista para a foz dourada àquela hora vespertina, que tudo acontecia. 

Em todas as viagens àquela cidade de granitos austeros, caprichos meteorológicos e tempestades improváveis, sempre que a graça do tempo lhe permitia a companhia dela, ficavam naquele hotel, sempre no mesmo quarto, que lhes servia simultaneamente de agenda ao trabalho e calendário ao amor. 

Nesse tempo de desejos, foi de frente para a cidade que juraram lá voltar.

Numa das vezes em que lá estiveram – foi num dezembro, com mais sol que frio, naquele ano em que uma estranha pandemia assolou o mundo inteiro, em direto e a cores. Naquele ano em que nos telejornais de todas as línguas se contavam os mortos como “likes” em redes sociais.

Dessa vez decidiram arrancar a cama da parede e colocá-la exatamente a meio do quarto, de frente para a janela, arrancando a cabeceira e as mesinhas à sorte do desenho original com que a Quinta de Nossa Senhora do Carmo tinha sido presenteada nas sortes de batismo dos casulos do hotel.

Ainda não eram seis da tarde e o jantar estava marcado para as nove — na casa de chá de outra Nossa Senhora à beira mar – e foi no meio dessa devoção que abdicaram de laudas e matinas para se dedicarem a vésperas e completas. 

Foi assim ajoelhado, de costas para a paisagem, que atendeu em prece os seus murmúrios; e desfilou em transe a oração, desafiando a doçura dos seus olhos, o ípsilon do seu corpo e a memória das antigas melodias populares que na margem do outro lado não mais se poderiam afirmar tristes ou sós.

Nesse tempo de desejos, foi de frente para a cidade que juraram lá voltar.

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