Sul

Como se eu fosse o galã principal num fim noir de primeira água, todo eu patine e Ford, Bogart e estilo, Stewart e ternura, atiro-te meia dúzia de palavras.

Batem-te sem as ouvires, como refrescantes salpicos de água, quase-milagres, numa tarde de calor líquido, dessas que acontecem com bandas sonoras diferentes (mas sempre suaves) conforme te sentas na brisa improvável numa esplanada no meio da praça principal de uma cidadezinha no country side do Novo México, ou no fundo mais antigo de uma pedreira, no deserto português do Alentejo perto de Vila Viçosa, onde, por causa da pedra rosa, os homens escavam o chão até ao núcleo sem que nunca fique fresco, e todos os flamingos que encontram, planando com asas de mármore, nunca são um miragem.

– Tens de ter cuidado como olhas, disse-te, pousando o meu olhar no teu como se todos os caminhos do mundo terminassem aqui – ainda vais mudar o mundo inteiro.

Sem saber como, afinal ainda não nos tínhamos levantado da cama, eu tinha as mãos cheias de cristais rosa quando disse aquilo e tenho a certeza que não me lembro onde estava.

Ao contrário da maior parte das pessoas o meu problema com a memória era esquecer. Sempre que isso acontecia e eu conseguia não me lembrar de algum momento passado com todos os seus exatos detalhes, desciam-me logo as pressões arteriais e os indicadores bioquímicos e de uma maneira geral a minha saúde e boa disposição aumentavam. Era bom, mas raro de acontecer.

Sacudi os fragmentos das mãos, batendo as palmas uma na outra, meio aplauso meio esfrega, sem fazer som, umas quatro ou cinco vezes em poucos segundos, até as mãos ficarem limpas, pousei-as nos teus ombros e puxei-te suavemente contra mim até a tua boca ficar à distância de um beijo.

Saiu-me em inglês, mas podia ter sido doutora língua qualquer, quando os nossos lábios se tocaram.

– South is always the perfect hiding place, Rita, tens a certeza que não queres vir comigo

Respondeste, numa língua que não recordo, com a mesma doçura com que as Bahianas da umbanda matam a tristeza na linha da Alma e no coração dos desenganados.

– Só mesmo tu para pensares que foste sozinho.

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