Shakespeare in love

É num momento que tudo muda. O norte e o sul mudam de lugar, as prioridades invertem-se, o calor inunda a face e o coração onde antes reinava um ressoante vazio transforma-se num sistema sonoro de alta fidelidade. Como nada de essencial acontece na ausência do som, também nada de essencial sucede na ausência do amor.

Deslassei a língua e procurei-te no som daqueles poemas ingleses, mesmo sabendo que preferias outras a essa essa língua bárbara de vikings e normandos, mas tu sabias que o ritmo de quem não estima os verbos carrega histórias que fazem sentido muito para lá da foz do Avon.

Sabia também que era mais fácil para ti preferir o Sul e que por isso, se não aproveitássemos bem o portal que se abria, podíamos não encontrar outra chance de emigrar de mágoa para a simplicidade que aquela música ia juntar à nossas vidas. Os poetas sem “ser” nem “estar” são mais dados a arranjos musicais que a acertos de letra. São coisas de bárbaros.

Começavam sempre com uma ideia forte, como uma profecia capaz de mudar o mundo e este foi assim.

It is hopeless my love / time hits as the rain falls / overpassing our virgin souls/ like moist and green bond in fertility / Time is ours. It’s our time / and as I told thy is hopeless as it can be.


O compasso da língua sibilando na ponta dos lábios, estalando no céu da boca, era estribilho necessário para o que vinha a seguir. Devemos sempre temer os poetas ingleses que se escondem em noites de sono como se soubessem dormir.

And even more hopeless to be / though you keep concealing from me / is the very fine moment we sought / C´ause I still have not met what I know that it’s that / I still have not heard, nor smelled or reached / the flavor of your thoughts or the faith of my preach.

Nenhuma bailarina saberia ser tão leve como aquelas palavras que o vento trazia. E continuei.

I know that you keep me ignorant and foul / so I won’t fall deeper from the sky and above / but Time always finds the perfect rejoice / all times it had laid in the sound of your voice

Já não havia longe nem distância. O som das tuas palavras produzia sentidos com aquela mesma textura com que a brisa de verão nos acaricia a pele nas tardes quentes ao por do sol.


Olhaste-me lânguida e doce sorrindo

— Preciso que me digas isso tudo ao ouvido quando me vires! Para ver se é verdade!

Respondi como se finalmente tivesse aprendido a andar

— Já conheci muita gente, mas de facto ninguém como tu!

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