PULP FICTION

Mais uma vez uma vez o amor chegou de surpresa. Nunca se percebe como vem, mas acaba sempre por chegar. Nunca se anuncia, mas quando toca à porta soa como uma sinfonia premiada em dia de ano novo. Violinos e mais violinos. Tudo cor e Poesia. Listas de desejos e fogo de artificio.

Entretanto o carteiro — devia ser o de Pablo Neruda — encostou a motoreta à tua porta da rua só para te dizer ao postino e ao ouvido, que tinhas de vir cá fora que era importante.

Sobe-te a pressão arterial (porque será porque será) e ferve-te o sangue como se fosses encontrar-te com um Pai Natal disfarçado de Mae West nas traseiras do palácio do gelo. Surpresa!

O amor vem sempre fechado em caixas insuspeitas. Esta era pequenita. Mignon. Trazia um selo de França. Avec n’importe quoi. Devia ser do confinamento, poderes achar que algué se ia lembrar de te mandar uma coisa de tão longe só porque se lembrou de ti. Só podia ser engano.

Ainda antes de lhe começar a desfazer o laço e arrancar o papel de embrulho, parecia um daqueles  papéis com que algumas lojas selecionadas preparam as entregas importantes e, na ausência de qualquer pista, comecei a abaná-lo com pequenos gestos como se vê fazer no cinema para sublinhar a espera.

Depois encostei-lhe o ouvido na esperança de encontrar pelo menos um tic-tac de bomba de relógio, um mecanismo complicado, uma voz qualquer ou simplesmente de um suspiro. 

Não tenho a voz feminina, não … disseste de dentro da caixa ainda por abrir. E penso que poderei ter toda uma mistura de sotaques. — De Viseu, uma cena meia “avec”…

— Isso é a casa dos segredos sem passar pela casa da partida… respondi-te a pedir mais sotaques e histórias, mas ainda não se percebia o que podias ser. 

— És péssimo… já te odeio… mas eu sabia, e tu ainda não que nunca era tarde para se ter uma infância feliz.  

— Tens mesmo 52 anos? — Perguntou ela como se a surpresa não lhe coubesse na boca — Passa-me o nome dos teus cremes já. Com menos 20 tenho bem mais rugas do que tu. Qual é o segredo? E tens imenso cabelo… Vida injusta…

— Cinquenta e três — respondeu ele com um entusiasmo contido — Não me roubes nada, que cada ano é um tesouro. Isso de ser jovem é sobre valorizado. E nem precisas de ser um “replicant” ao por do sol, adivinho de ausências e a eternidades.

Foi então que o laço se soltou e o papel, branco e negro como manchas de uma vaca dos Alpes, logo caiu. Lá dentro 16 tatuagens, só traço, sem corpo como pictogramas muito elegantes, vinha a tua pele a explicar Tarantino. 

Foi a tua voz que deu cor à noite e desatou a insónia. Django. Mia. Vincent. Mr. Wolf. Jackie Brown. Eu já supunha que gostava de magricelas de voz rouca, mas nunca esperei que fosse assim. Kill Bill. 

— Tenho uma lista de mortes tatuada no corpo.

— Temos de a ver.

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