Pole Position

Primeiro muito lentamente, como o volante daquela ode marítima, a roda começa a girar. Estamos de frente para a estátua, de costas para a vista sobre a cidade, na primeira linha da partida do nosso primeiro grande prémio, 

Ainda há muita confusão à nossa volta precisamos estar concentrados. As corridas de fórmula um são sempre um circo, mas são apenas destino de alguns muito poucos. 

Estamos sentados no cockpit das nossas vidas ao volante de um estranho monolugar onde cabem dois, feito para dois, e para todos os que o nosso amor gerar. 

A vida é uma corrida – dizes, mas não sabes muito de carros nem de circuitos, nem de boxes – tenho exatamente sete minutos para ti. Depois nunca são sete, são sempre mais, múltiplos nervosos de uma ideia mágica com que convencionaste explicar-te a essa equipa que não te entende, mas que até agora te servem de ajudantes de pista, mecânicos, engenheiros e agentes. 

– O que importa é o que tu queres – digo pausadamente ainda antes do roncar dos motores e da volta de aquecimento. Miúdas giras de mini saia levantam cartazes à nossa frente, o equipamento sonoro anuncia que o grande prêmio está prestes a começar, há uma grande agitação de câmaras de televisão, marcas, amigos, desejos e patrocinadores. Uma das starlets exibe a placa bem levantada acima da cabeça, atravessando a pista bem no nariz da nossa pole position – “1 minuto” e os motores começam a roncar anunciando que a partida está para breve. 

À nossa volta a estrada começa a despejar-se. Quem não é de cena vai saindo de cena e, como no momento zero, o segundo imediatamente anterior ao “ação” no plateau do cinema, sinto a emoção dos teus olhos nos meus como a de um eterno beijo de despedida. Um impossível adeus onde partimos para ficar juntos para sempre.

—Vês? O tempo já não interessa. O nosso olhar aprendeu a ser eterno — Faltam 30 segundos para a partida, mas cada vez o tempo passa mais devagar, uma espécie de slow motion metafísico que nos atira para o paradoxo do arco de Zenão onde a seta dividindo o espaço pelo tempo nunca atinge o alvo. 

— Achas que vamos arrancar — perguntas no imenso sorriso que sempre exibes só para mim. Digo-te que vamos partir para sempre e que sem dúvida essa é a única coisa relevante que alguma vez nos pode acontecer. Os motores aceleram com tal ruído que não nos conseguimos ouvir. 

— Dá-me a tua mão — Estendeste-a com a palma virada para cima e apertei-a com força antes de as luzes do semáforo ficarem todas verdes. Carregámos em uníssono no acelerador e partimos.

— Chegamos à frente à primeira curva — disseste entusiasmada.— Ninguém nos pode separar, retorqui — Vamos ganhar os dois esta corrida.

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