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As passwords são as palavras que mais escrevemos, mas, na maior parte das vezes, não acrescentam nada às nossas vidas. Esse pequeno contrato que todos os dias celebramos com o computador ou telemóvel pode tornar-se num ritual cheio de significado. Pode até mudar a nossa vida.

De manhã cedo, antes de começar a escrever este texto, falava, ainda ensonado, com a minha namorada de então, sobre a força transformadora do mês de outubro. “Já passaram as férias e o regresso às aulas, e é no tempo que falta até ao inverno que vamos medir o sucesso daquilo que foi mais um ano das nossas vidas.” Respondi-lhe, entre a almofada e a gripe, com um título de pacotilha: “Outubro, ou nada!” Mas fiquei a pensar.  

Aprendi na Faculdade de Letras da universidade de Coimbra com o professor Júlio Taborda que há diferentes tipos de palavras, e que elas se classificam de acordo com o efeito que provocam quando são pronunciadas. Dizia o meu mestre, que conheci no primeiro ano da licenciatura em Jornalismo, que as palavras produzem três tipos distintos de efeitos: locutivo, ilocutivo e perlocutivo. Locutivo é quando dizemos alguma coisa, ilocutivo é a intenção que essa coisa que dizemos tem; e perlocutivo, o efeito real que essas palavras produzem. 

Quando dizemos, ou escrevemos alguma coisa, estes três feitos produzem-se em simultâneo. Por exemplo, quando um padre diz “eu te batizo”, um chefe “estás despedido” ou um dos amantes “eu te tomo como minha esposa”, há sempre um significado comum (locutivo) que pela força que emana (ilocutivo) produz um resultado (perlocutivo). A entrada numa comunidade religiosa, no centro de desemprego ou a mudança de estado civil.

Esta força é a beleza maior das palavras e dos textos. Sejam eles teses académicas, leis fundamentais ou cartas de amor, é pelo uso das palavras que a vida se transforma. 

Fui então procurar as palavras que mais escrevemos. Quando somos estudantes, escrevemos o nome completo — “uff!” o meu é tão grande — nos teste e nos exames, quando vamos tirar documentos, abrir contas bancárias e outro sem número de atos administrativos que nos tornam adultos. Mas esse tempo passa e o nosso nome não deixa de ser apenas isso: uma designação. Diria o professor Taborda: apenas ilocução.

Mas os tempos agora são outros e as palavras que escrevemos mais são as passwords. Estas têm um imenso potencial perlocutivo. Podemos através delas, em vez de repetir aleatoriamente conjuntos de nomes e datas sem sentido aproveitá-las para definir projetos e objetivos. 

Se, a cada vez que o nosso sistema nos pedir para trocar a palavra passe, em vez de andarmos à procura de outra combinação tonta e mil vezes repetida, podemos aproveitá-la para tomar decisões e comunicá-las a quem interessa mais. A nós próprios.

Porque é a atitude que nos faz mud4r@d3.v1d4!

Escrito originalmente em 23 de outubro de 2018

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