O teu perfume

Não! Eu sou bastante calmo, serenamente calmo, mesmo ― e sempre o fui; porque me supões inapto?

A vida tornou mais redondos os meus sentidos ― apenas os melhorou, os suavizou. Mais do que os outros, tenho um olfato suavíssimo. Sinto admiravelmente todos os aromas produzidos no céu e na terra. Tenho cheirado até muitas coisas do paraíso.

Como posso, pois, ser um inapto? Atenção! Repara bem… Com que inaudita demência, com que firmeza de corpo vamos viver toda esta história?

Ser-me-ia muito simples dizer-te como primitivamente a ideia entrou no meu cérebro; talvez por essas molares diluições pelas quais o sentido do mundo resvala pelos meus pulmões adentro emprenhando o ar; mas uma vez concebida, ela nunca mais me abandonou, dia e noite e noite e dia e todas as suas correspondentes madrugadas.

Sem fim algum foi esta paixão natural e certeira. Eu estimava deveras o casal que me imprimiu nas páginas do catálogo — eles nunca me fizeram o menor mal — aliás sempre se dispuseram, até mais ele, a louvar a minha serena criatividade e nunca invejaram o meu dinheiro. Queriam só ajudar-me, mesmo sem saberem que eu nunca me permitiria viver uma outra solidão.

Creio que foi o meu nariz! Sim foi isso, decerto! Um dos meus dons era como o do elefante ― de pele dura mas olfato detalhado que se diria ser ele o próprio nervo, recoberto por uma finíssima película cristalina. Dimensão que filtra o ar e embriaga.

Cada vez que o teu cheiro me atingia, sentia-o velar-me o sangue; e assim, lentamente ― por palavras ― muito intimamente, introduziu-se na minha mente a ideia de arrancar tempo à sorte dos teus dias, para, dessa forma, poder guardar para sempre o teu perfume.

Palimpsesto raspado sobre “O CORAÇÃO DELATOR” de Edgar A. Poe.

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