O dia novo

Há muitos anos que esperava que me acontecesses. Esperava-te sem saber na curva da estrada, no delta do rio, no cruzamento dos sonhos com a vida e em todas as esquinas onde a sorte encontra os homens que a querem.

Esperava-te na linha branca onde os meus dias invariavelmente começam. Combinámos encontrar-nos lá, todos os dias pela manhã, dali para a frente, invariavelmente, sempre que um dia novo nascesse.

Achámos uma ótima ideia porque era muito provável que todos os dias nascessem, nem que fosse só para nos cumprimentar.

Foi nessa espera que comecei a escrever-te. Ao princípio sem saber que gostavas ainda mais de palavras que de sorrisos e ainda mais de silêncios que de palavras. Ao princípio desconcertado porque não sabia bem o que me desatava os dedos e me fazia atirar ao papel, como notas de música, aqueles lugares onde já antes tínhamos vivido sem saber. Fermina e Florentino, éramos. Ou seriam eles nós?

Também foi muitos anos depois, mas frente a outro pelotão, mais benigno, dos nossos amigos improváveis que o céu e a terra haveriam de começar a mudar de lugar.

Há muitos anos que esperava que me acontecesses. Esperava-te à porta da igreja, nas lombadas dos livros, nas rimas das canções, no sorriso das crianças, na chuva desabrida das tempestades de verão que Deus enviava dos céus para purgarem as almas desvalidas de quem não entende o Amor.

Esperava-te em poemas que já tinha escrito e não sabia. Esperava-te sem saber que te esperava, na espera da espera, no fundo da rua, na água do mar.

Esperava-te na linha do horizonte, no solstício de verão e no de inverno, no infinito e no oito, no calendário digital e nos ponteiros de relógio.

Ainda hoje continuo à espera, como uma sequoia milenar, que não sabe que o tempo mesmo sem direção só tem um sentido: cegar o céu.

Espero-te nos versos de um soneto que inventei naquele dia claro em que te vi, mas não escrevi porque tive medo de ser cedo de mais.

Espero-te nos sentidos agudos, nas frequências altas, em câmaras hiperbáricas e na ausência do som. Nos poemas de Yates nas profecias de Marquez, na biografia de nós.

Espero-te no olho do furacão, no berço do tempo, no riso dos nossos filhos que ainda não nasceram. Na música sem fim que ainda nem sequer inauguramos. Num passo de dança. Num soneto. No teu poema.

Espero-te ainda sem saber se o dia é hoje. Porque não sei se alguma vez mais contarei o tempo assim, segundos todos sem fim, minutos de onde não sais. Em longas horas eu penso, que só contigo há futuro que um dia sem ti, eu juro, é sagração sem incenso.

É tempo onde não há luz, guerra onde perde Marte, paz onde a paz não seduz, nem no todo, nem em parte. Espero-te porque todo o tempo a ti conduz. Venha o dia! Quero amar-te!

Publicado originalmente em 14 de julho de 2020

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