Na queda do céu

Aterrisou de emergência na jangada de pedra o pássaro de ferro. Arrastou com ele um emaranhado de ramos, folhas e cipós que, roubados à copa das árvores, lhe amorteceram a queda.

Saramago ou nada! Bradou o piloto pela janela da escotilha. Fazer voar a ver navios não é exercício que sirva em uma imaginação qualquer.

Saramago ou nada! Que a jangada é uma enxerga de vergonhas bolinando para longe de tudo! Não para perto de nada.

Tocada em fuga. Lá no sonoro lugar onde o verde encontra o foco. Deviam existir palimpsestos disponíveis para insistências precoces. Como o grito do piloto, a lucidez do embate ou a subjetiva queda de todo o aparato.

Insisto ainda no piloto gritando no primeiro parágrafo, quase nunca ninguém se preocupa com os motivos, apenas com as consequências.

A custo o homem lá saiu do cockpit. Continuado, aos berros, atribuindo sua salvação a essa viagem que um país faz abandonando a sua história rumo à incerteza.

Falta-me essa foto

Ninguém consegue se salvar citando poetas menores, nem sobreviver à queda do céu sem a linha do horizonte nos teus olhos.

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