És mau, inverno

Não suporto esta chuva de miúda tez, que não é adulta nem imputável de outro jeito, que não se vê e molha a alma da gente por dentro. Já me chegam estes invernos todos. Este frio que se enfia pelos ossos como uma camisola de agulhas.

Não aguento mais esta modorra, esta praga de humidades secas e inúteis. Este inferno molhado sem palavras nem poetas tropicais. Não quero este moer sem ginga. Não quero mais. Quero ir-me para o verão.

É sempre quando a noite chega que me dói mais. Que sinto aquela paz mórbida sem santo nem profeta que se instala no coração vazio; como no norte— em novembro — o nevoeiro cansado se senta sobre a curva do rio, para apenas se voltar a levantar na primavera.

Cada inverno rouba-me pelo menos três horas de dia. Todos os dias — sem fazer contas — só porque gosto do três e me sinto menos espoliado por algarismos perfeitos.

É um assalto à luz armada, sem que haja um mãos-ao-ar que faça valer a pena, ou uma promessa de beijo ou outra melodia qualquer mais ou menos conhecida que aqueça esta morrinha gélida. 

A seta desenhada no por-do-sol digital apontada ao solstício de inverno é uma faca romba cravada na minha alegria. Chega de nevoeiro! Se todos os dias há luz por entregar, porque me hei-de inclinar eu em vez do eixo? E porque hei-de rezar eu e não o santo? E porque hei-de sofrer em silêncio esta desdita, se na verdade vivemos todos neste purgatório aquoso. Grito frio!

 Não descubro nele nenhuma alegria por cantar, ou piada de bom gosto, ou cântico, ou salmo, ou entremeada grelhada ou posta de bacalhau, ou festas populares, ou mais!

Nunca me sabe bem esta paz triste, encolhida e exangue, à procura de um lugar vago perto do borralho quente, onde apenas se pudesse acomodar a um canto onde ninguém a me lamber as feridas.

Apenas quase, mas sem saber. Porque não era degustação, era fuga e não era conforto, era morte. Porque não era calma, era cansaço e não era esperança nem desespero; era apenas o que se seguia. O que vinha a seguir. O frio da chuva do malvado inverno.

Não procurava sentidos místicos para o silêncio solene da língua raspando contra a dor. Nem reminiscências de felicidades antepassadas. Apenas não queria lá estar sem estar. Nem saber. Nem ser.

Depois tu dormiste. E acordaste. E não te lembras do que talvez tenhas sonhado. Só me consegues agradecer, numa oração mínima, o facto consumado de, à tua revelia eu ter mudado o sol de hemisfério.

Sei que há essa coisa que não queres nomear, que se perde todos dias para sempre na máquina do tempo e todos os dias volta para te lembrar tudo o que já não há. Como a manhã fria e húmida do primeiro dia de chuva depois de muitos dias de sol. 

És mau, inverno. Vou-me embora! Vou para o sul.

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