Brasilêro

Foi quando o meu avô materno emigrou para o Brasil — como milhares de outros portugueses — ainda antes da segunda guerra mundial, procurando os sonhos de que o tamanho de Portugal e situação política de então não permitia, que o maior país de língua portuguesa entrou no meu coração, embora eu ainda nem tivesse nascido e muitas décadas haveriam ainda de passar sem que eu o soubesse.

Como o avô Fernandes ficou 11 anos fora de casa sem dar notícias, a reputação do Brasil sempre foi má junto da minha família e falar do Maranhão e do Pará, os destinos perseguidos pelo meu antepassado, ou de qualquer outro estado, praia, serra ou cidade brasileira, causava imediato conflito.

Na verdade, a minha mãe Piedade, que Deus a guarde bem, foi a principal prejudicada pela diáspora familiar. Primeiro porque a ida dele lhe trouxe sorte; então a filha mais nova dos 5 irmãos da família, ganhou guarida junto de uns tios abastados que a criaram até ser menina e moça como uma princesa. Depois porque quando ele voltou — e a resgatou pela primeira vez para o seio familiar — ela culpou o Brasil pelas mordomias perdidas e não o pai, que acabava de voltar dessa peregrinação.

Aconteceu muitos anos antes de eu nascer, mas esta história teve na minha vida uma importância fundamental. Foi por causa dela que desenvolvi uma extraordinária curiosidade por tudo o que acontecia na terra que fez o meu avô deixar para trás a mulher e os filhos e viajar milhares de quilómetros para tentar a sorte. Foi ela que me “apresentou” aos conceitos — família, fidelidade, certo, errado, poder, machismo, silêncio, raiva, vergonha e até vingança.

Mas mais importante que tudo, maior que todos os rancores que os Fernandes mantiveram entre si durante muitas gerações, foram os valores que compreendi ao mesmo tempo que conhecia a palavra Brasil: o amor e a liberdade.

a.

Em Portugal, Coimbra é uma das cidades onde mais brasileiros moram em Portugal. E com muita probabilidade uma das que mais estudantes e doutores tem fora do Brasil. A “nossa” universidade de Coimbra está eternamente ligada ao Brasil, sendo uma das referências principais na construção da sua história e sobretudo da sua génese social, cultural e política.

Até o início do século XIX, não existiam universidades no Brasil. Então, na colónia portuguesa as graduações universitárias eram proibidas e quem tinha oportunidade financeira vinha estudar nas universidades portuguesas, principalmente na Universidade de Coimbra, a mais antiga universidade portuguesa uma das mais antigas da europa, fundada em 1290.

É por isso que hoje conto, aos brasileiros que vivem, estudando, ensinando e trabalhando numa das cidades mais importantes para a sua história, uma “estória” pessoal, que é uma declaração de amor. Faço-o na ocasião especial em que o Brasil celebra 199 anos de independência e num momento da minha vida pessoal e profissional onde muitas vezes me sinto, também, um cidadão “brasilêro”.

b.

“Brasilêro” é uma das fontes brasileiras mais populares de todos os tempos. O projeto tipográfico começou com a análise de centenas de letreiros feitos à mão encontrados em diversas cidades brasileiras, numa tentativa de traduzir o impacto dessa cultura visual popular em uma tipografia digital. Foi desenhada em 1999 e lançada ao público em 2003 como fonte grátis.

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