JM Diogo

Sai!

Sai!

Não me amedronta sair de casa mas tenho medo de não conseguir voltar. Lá fora é sempre a mesma coisa porque nada muda, nem tu nem o mar à tua volta nem as viagens feitas de silêncios em vez de bilhetes de avião e saudades. Trazias na palma da mão  uma lembrancinha, uma insignificância qualquer, só para poder continuar a Continue reading Sai!

Mãe

Mãe

O tempo é inexorável. Um fantástico filho da puta. “Tudo nos dá e tudo nos tira”, dizias. Mas não há outra guerra que valha a pena. Desafiá-lo é um duelo de morte sempre perdido a que não se pode escapar. Mas será mesmo? Oh inimigo definitivo! Como hei-de lidar contigo? Que te faço? Que te Continue reading Mãe

Faena

Faena

Combinavam-se de encontros no parque infantil contíguo à praça de touros. Chamavam-lhe carinhosamente uma coisa temível: Matadouro de saudades. Não tinha, é certo, a graça das verónicas, a precisão do estoque ou a volúpia dos pasodobles, mas valia mais que um rabo e as orelhas.  Debaixo das bétulas e dos jacarandás bem no meio do Continue reading Faena

Antes de dormir

Antes de dormir

Deitado na cama aponto os olhos ao teto branco cinza escuro, quase negro, iluminado apenas pelas sombras que entram pela única janela do quarto. Para adormecer tento encontrar formas e  significados às manchas de luz que cada carro que passa  lá fora deixa na penumbra. A luz é tímida que quase não impressiona. Não há Continue reading Antes de dormir

Metamorgato

Metamorgato

Tu. Nem uma palavra nem um suspiro nem um som. Nada. É como se tivesses desaparecido no céu depois da taça de gelatina. Imaginas-te sem saber bem porquê, de saia comprida, como naquelas fotos sépia de sufragista, a andar, vigorosa, cinzenta escura, por cima da calçada, passos largos; sou uma cientista qualitativa, olha que não Continue reading Metamorgato

Run

Run

Esfalfo  o chão  Asfalto  a luz Corro Esmurro o gosto Travo  o tempo Corro Não desisto  Insisto Grito  Só (Corro)

Na Ode para o futuro

Na Ode para o futuro

Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Como quem inventa o fim de tarde num citadino jardim inesperado e se encontra desejando o mar Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente. Nos breves segundos de um ascensor Continue reading Na Ode para o futuro