The strange cook boy

Aquele chapéu de chef chocava quem chegava. Era show de horror antecipando rojão.

Um dissabor mental para os circunstantes desavisados que acorreram à casa no engodo de um remake lusitano da versão original da iguaria sãopaulina.

O chef parecia o mesmo, mas alguma coisa havia mudado. Será que a minha cabeça não é mais a de outros tempos?

No compasso da lembrança vaga dessa noite mágica fiquei pensando que memória e reconhecimento são coisas distintas.

Fechando os olhos a gente lembra a forma do sorriso no rosto dos amigos, os sons da música e o timbre da voz, e o calor do beijo no toque da pele.

Mas não lembra o aroma do cravinho, o cheiro da pimenta ou o odor do café, nem o sabor do gengibre, o travo da canela ou o gosto do açúcar.

Esses a gente só reconhece.

A gente lembra a cor do doce, mas não o doce. A memória das farófias é apenas branca e amarela, texturada e branda cratera quase lunar. Mas ao que elas sabem a memória não vê.

Por isso quando agora penso naquela noite, apenas consigo lembrar o maravilhoso cabelo da Mônica, o concreto discurso do Schiavo, a gargalhada fácil do Jean Claude, o mesmerizado sorriso da Jaqueline, o tamanho incrível das crianças, as eternas alegria da Raquel, os Alvarinhos da Mana, os gestos soltos do António, o olhar tímido do Nuno, a ternura da Patricia, a cara feliz do Henry, a incrível generosidade da Maria, as ausências sentidas da Sandra e do Afonso.

Lembro ainda os movimento ágeis da minha Carolina projetando a mulher bela e fantástica que vai ser (e que já é).

Mas não consigo lembrar nenhum cheiro, nenhum aroma, nenhum sabor.

Só me lembro do cara do chapéu. Se o encontrar será que o vou reconhecer?