Segundo andar esquerdo

Sempre vens brincar connosco? — perguntou Fernando — mãos baixas, cruzadas na frente das jardineiras velhas, pé esquerdo na soleira da porta, olhos degraus a cima, fixos nos luzeiros negros de Ofélia. 

Alberto fitava-a impávido e tranquilo como quem vê explodir dez bombas de Hiroxima sem sequer pestanejar. 

Depois dos clarões, lentamente, como acontecia depois de o tempo mudo lhe causar vertical desconforto, soltou novamente as mesmas palavras daquela pergunta tantas vezes repetida. — Sempre vens brincar connosco?

Connosco era um mistério da criação. Porque nunca havia mais ninguém, nem no pátio da casa dela, nem nos planos da cabeça dele, nem nas hipóteses mais remotas alguma chance de outra alma física se juntar às vontades e alegrias que os olhos de Ricardo imaginavam nos de Ofélia. 

Ele apenas dizia “connosco”, porque quando os dois saiam pátio fora a passear, nunca eram só um. Iam brincar e os dois multiplicavam-se como coelhos numa pradaria americana e, por todo o lado, subiam e desciam pinceladas de Bansky numa tela branca, dedos de Shostakovich num piano de cauda e pops na panela esmaltada das pipocas, onde todos — desde que a avó Esmeralda inventou o espetáculo — assistiam ao rebentamento mágico do milho que ela chamava de “fogo de artifício enlatado”. Tinta, impressão, ruído e história. Folia e Tudo. Amor.

Mas desta vez Ofélia estava inerte. Ela não queria que ele percebesse que nesse dia as pernas lhe estremeciam porque o seu coração era uma escala menor. Não queria estragar a brisa leve que se iluminava no movimento lento que o sol coado desenhava mansidão da tarde. Tudo seria imperfeito para o que se seguia. 

Muita coisa tinha mudado desde a última vez em que o rapaz se assomara no fim das aulas à casa dela, escondido do pai, dos amigos e dos irmãos. Ofélia fingia que lhes fazia frente, mas na verdade era a cumplicidade da mãe, a única que como ela sabia entender o amor que a deixava respirar. Só que desta vez a mãe Clara não tinha vindo em seu auxílio. 

Foi então na oscilação de uma folha, na inércia de um movimento inesperado e diferente, que Álvaro percebeu que alguma coisa se tinha transformado. O tempo era pesado como nunca e a resposta não surgia. 

Nem um som. Nem uma interjeição. Nem sim, nem talvez, nem não. Apenas o olhar vítreo dela, fixado no dele, em oblíqua descendente, vazio e mudo.

Alexander fechou os olhos para não ver. Sabia que quando os abrisse ela teria partido para sempre. Seria impossível procurá-la.

Ouviu-lhe os passos, sentiu o instante em que os lábios lhe pousaram na testa e um respiro. Mas nem uma palavra. Nem um som. 

Sentiu o coração enrugar-se no tempo em que esperou o milagre. Quando toda a esperança o abandonou deu meia volta e, já de costas para a casa, sentiu o calor diminuído do sol quase posto no rosto. 

Quando por fim Fernando abriu os olhos, já neles a luz se havia extinguido para sempre. 

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.