Porto de Santa Maria

– Temos de fazer mais fé na vontade da bússola, Afonso. Devemos acreditar mais. Afinal não é à toa que acabamos sempre a olhar o futuro perto do mar.

Todos os instrumentos de marinhar nos dizem isso, só que às vezes nos distraímos com latitudes erradas e em vez de enfunar velas deitamos raízes. Como se nossa tradição de heróis da terra, penínsulos Viriatos, nos tornasse mais difícieis as ondas que outros caminhos.

– Sabes? Eu tenho a certeza que o mar se esconde sempre em qualquer lugar.

Mas não nos enganemos, ele é o tempo e o mapa e é impossível escapar-lhe.

Nas nossas memórias de rapazes do interior, onde nos anos da infância ele só existia em alívios de calor seco; ou nos jantares de amigos, celebrados na praia, onde, quieto e escuro, o oceano nos distraía os sentidos, fazendo-nos querer que não está lá.

É o lugar certo. Não foi isso que me ensinaste um dia, aqui à atrasado, como gostas de dizer – dez anos talvez – na mesa da minha casa de Lisboa que sempre foi tua?

É o mar que desenha os viajantes, os fazedores do mundo e todos os arquitectos do universo que somos nós.

– O plano perfeito é viver cá e lá, dizias, como se um estalar de dedos chegasse para levantar ferro das Avenidas Novas ou das Portas de Benfica e aportat nos Jardins, ou no Leblon.

Ainda ando à procura da rota, mas a tripulação é perfeita.

O comando da Mônica, a manobrar astrolábios no tombadilho, o portulanos do Schiavo a enganarem todas as tristezas do mar; os crustáceos do Jean Claude, os primeiros camarões cosmopolitas do universo na mesa farta; a Maria do Céu a segurar o leme contra corsários e piratas, a Jaqueline guardando a sete chaves os planos da expansão; o sorriso imenso da Sandra nas tardes de calmaria.

Olho da gávea o convés e sorrio. Lentamente levanta-se uma voz, grave como a maré, e relembro os sonhos do poema de infância

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar, E roda nas trevas do fim do mundo,

E em mim também manda uma vontade, não me ata ao leme, mas diz-me a verdade. O caminho é por aqui.

– Bem-vindos. Este é o meu mar.

Porto de Santa Maria, Cascais, Portugal