Os teus beijos

Dá-me só um beijo. Só um. Um que não seja breve. Desses que fazem as memórias trágicas dos poetas loucos. Desses que andam sempre de boca dada como se fossem irmãos de sangue. Desses que são negócios ruinosos e são também a sorte grande. 

Desses que escrevem romances e atiram sonetos à rua pela janela como se todas as páginas merecessem pelo menos uma vez na vida a palavra amor.

Em vez disso dei-te eu dois beijos pequenos quando te visitei na sala de espera da clínica urbana da cidade inverno. Devias andar à procura de diversão no espelho — ou nas minhas mãos — mas só quando decidiste trocar a planície de searas por essas montanhas de pingue pongue é que percebi que os teus beijos sempre foram montanhas russas. Pequenos beijos com que te dei olá e me despedi antes que a faca te rasgasse a pele e te enchesse o peito de Lolitas, Amantes e vice-cônsules e levezas do ser, antes que algum Kundera, Duras ou Nabokov te assomassem à janela. 

Depois sentei-me ao teu lado, a fazer horas como quem se senta na fila do poço da morte a ouvir a gravidade fugir dos motores a dois tempos e a sentir o teu coração a fazer bips no mostrador verde da cabeceira da cama. A tua irmã havia de chegar com uma bagagem de sorrisos e uma leveza estranha que até parecia que também se queria dedicar ao montanhismo. Acho que era curiosidade pela tua coragem. Ou apenas o cheiro do éter.

Pesas sempre menos de 50 kg – ainda havias de pesar ainda menos quando te enchessem de antibióticos — mas mesmo assim o teu sangue é mais vermelho que o oxigénio todo de uma armadura grega, achada conservada em ferrugem num secular naufrágio Tirreno. Mas o teu índice de oxigenação só era menos que 100 para não ser sempre 100. Ninguém aguentaria a pureza do teu respiro.

Deste-me um lenço com pássaros que eram uma coisa de frente e corujas de lado para não me esquecer de ti. Mas eu nunca percebi nada de pássaros e a minha observação resumia-se ao perfume que ele tinha quando plantaste essa bandeira no pavilhão da minha alma.

Dá-me só um beijo. Só um amor. Desses que me fazem escrever à velocidade da luz. Que me inspiram o gosto mais que o vinho, e são verdadeiras passagens executivas para o êxtase longo dos amantes. Desse que não me deste lembro-me bem. Cabe lá dentro o mundo inteiro e a vida toda; e as saudades que a vida toda tem do mundo inteiro.

Mas são os dois beijos pequenos que te dei, antes de te atirares à elegância dos decotes, que me guardam as horas e velam as noites na esperança de que, quando o galã te encontrar, nada fique de pé na tela do cinema.

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