espuma dos dias

#OAmorÉCego

Atirei-te o texto para a janela verde do ecrã e, exatamente nove minutos depois, devolveste-me um coração vermelho. 

Mandei-to porque confiei em ti impulsivamente, na tua qualidade crítica ainda invisível, mas, no momento exato em que carreguei enviar, soube imediatamente que não era apenas um texto que mudava de cor. Era muito mais que isso. Muito mais. 

O documento em word chamava-se a “amor é cego”, mas quando foi publicado no jornal de província onde escrevias, tinhas-lhe mudado o nome, rebatizaste-o de “o tamanho da desgraça” e só muito tempo depois, já estas linhas eram apenas memória de uma memória, é que te perguntei porquê. 

Adorei, disseste. Não sou crítica de literatura, mas achei a linguagem simples, o texto muito bem redigido e a mensagem intemporal — e como uma gaiata reguila acrescentaste um hashtag: #oAmorÉcego. 

Mesmo sem saber o que querias dizer com isso respondi-te quase de imediato, sem parar um segundo para pensar — “Somos todos críticos literários — disse — os que temos bom gosto e um brilho no olhar. Somos críticos e amantes.”

Não soube se confundias o jogo da velha com citações, ou se estavas apenas a divertir-te comigo quando retorquiste, imaginei a tua cara trocista frente ao ecrã verde a digitar a pergunta — “E o que dizem os teus olhos”? Apanhaste-me de surpresa. Eu sou uma pessoa de negócios que já não se lembrava de sentir assim. E tremi, tremi muito quando as tuas linhas começaram a chegar. —  Dizem muita coisa quando os fecho, mas calam-se quando há luz, sabes?  

Nesse momento conseguiste determinar com exatidão milimétrica o meu lugar, mesmo quando só vagueavas em silêncio pelas minhas palavras. Elas dizem-me que os teus sorrisos são de cristal, transparentes e belos, misteriosamente iniciáticos quando apanhados de surpresa contra o cenário dos Americanos modernos, escondidos no pátio improvável daquele hotel onde nos levaste a almoçar. 

Nesse dia íamos descobrir juntos aquela parede luminosa, desenhada há muito tempo à revelia dos teus olhos. Íamos encontrar ali mesmo, no lugar onde levavas toda a gente com quem querias fazer coisas — mas que, antes de mim, nunca a tinhas conseguido ver — o momento certo de uma nova criação. Dedo de Deus e Adão, desenhados na parede colorida de um pátio interior em vez de decorarem abóbadas sistinas. 

Há coisas que estão destinadas ao seu momento certo e nunca chegam com atraso. Sejam impreteríveis alegrias ou inexoráveis infortúnios, elas acontecem sempre bem e à hora certa. São acontecimentos perfeitos, fatalmente consumados, como as badaladas de um relógio no momento em que uma mãe dá à luz, como a hora certa da onda mais baixa da preia mar, como o segundo primordial do primeiro raio de sol ou, como agora sabemos, aqueles nove minutos em que o texto saiu e o teu coração chegou.

Sabíamos os dois que a qualquer momento podias começar a citar Shakespeare à procura de redenção. Mas, se nenhum de nós sabe o que fazer com o que sente, como saberemos os dois o que fazer a seguir?

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