O tamanho da desgraça

Ainda não me tinha levantado da mesa, quando a tua lua lenta me entrou pelos olhos dentro. Para medir o tempo? — inquiri — É preciso teres muita coragem para desejares o primeiro dia de inverno com a mesma vontade com que pediste o calor da primavera.

 Só tu conseguias ser assim. Ansiando pelo fim das coisas, com aquela alegria iniciática de quem, colado ao ventre da tua mulher, sofria a dor física do nascimento dos seus filhos.

Nervo e fúria destemperados, e tu, a flutuar numa tranquilidade de quem acredita que tudo corre bem, porque o destino está sempre fora do nosso alcance. Nunca te cansavas de repetir que oitenta por cento de tudo era sorte.

A história da nossa amizade era um repositório de comédias românticas e sonetos de amor desesperado, mas em todas as conversas falávamos do amor e da solidão com um desprendimento tão grande que, quem não nos conhecesse, podia acreditar que nunca os tínhamos convidado para jantar. Que esses dois eram estranhos lá em casa. Logo eles que eram os inquilinos mais frequentes das nossas vidas.

Mas enquanto adivinhávamos o futuro — era sempre para isso que serviam os nossos encontros —e discorríamos em inutilidades, o verão não vai ter fim e onda de calor não passa de uma fantasia, o teu olhar era mais firme que de costume. Como se focasses melhor. Como se apreciasses mais o sorriso que te devolvia quando que me lias um excerto do que, entretanto, escreveras.

 Desta vez trazias uma novidade. Tinha-la anunciado antes com o mesmo entusiasmo de outras vezes — Apaixonei-me, tenho de te contar — e eu esperei-te, defendida por macrobióticas, chias e açaís,temendo que chegasses como um centauro desvairado como era costume nessas ocasiões, mas vinhas calmo como um poodle aposentado e durante muito tempo não disseste nada.

Como acontecia sempre que te apaixonavas ias lá a casa ouvir-te. Nunca tive dúvidas que não era a mim que falavas das mulheres que te incendiavam o olhar de quando em quando. Até tinha uma espécie de índex para o tamanho do teu encanto. Nunca te contei, mas sempre soube exatamente quanto tempo iam durar os teus amores.

Havia uma fórmula. Mordidas de lábio vezes piscar de olhos a dividir pelos sorrisos que a vergonha de impedia de escancarar. Para mim não tinhas segredos.Mas não te atrevias.

Mordidas de lábio vezes piscar de olhos a dividir pelos sorrisos que a vergonha de impedia de escancarar. Para mim não tinhas segredos.Mas não te atrevias.

Falámos de muitos futuros antes de te atreveres a pronunciar-lhe o nome. Olhámos o céu,contámos aviões e ouvimos umas músicas novas e outras velhas de sempre, até pensei que dessa vez, pela primeira desde que nos conhecíamos, não me ias contar. Então, levantaste-te da mesa, deste um passo atrás e afastando-te da mesa, ficaste a contemplar o céu negro lá fora. O teu olhar sorria.

— Hoje esperei a lua passar entre o aro e a rede num jogo de paciência. Foi tão belo que podia demorar a vida inteira — Foi só aí, que percebi o tamanho da desgraça.

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