Improvável Leblon

Chegámos exatamente no momento em que a luz se entregava ao oceano.

Tínhamos ido ver o mar engolir o dia, tão leves e maravilhados, como se isso nem fosse nada do outro mundo.

Era o primeiro dia do ano e o fogo de Atlas que segura o mundo sumia-se na nossa frente como uma epopeia.

Como se no momento exato desse naufrágio, a luz gritasse por socorro e tudo mudasse no calendário.

Mãos invisíveis, grito de Munch, guerra das estrelas, cavalo de Bonaparte.

Dizem que na hora do por do sol, logo antes do lusco fusco, a temperatura desce muito, mas todos também sabem que isso só acontece com corações frios ou corsários.

Nós ficámos apenas flutuando na areia da beira mar, corpos quentes que nunca descem, vendo Nautilus sonhando Caravelas, e contando histórias de marinheiros que nunca quiseram sair do mar.

Na hora marcada a luz afundou-se milimetricamente.

Então nós ficámos olhando o tempo como se ele fosse só passado e sorrindo para o céu como se ele fosse todo o futuro.

A amizade não se atrasa. Deve ser por isso que nunca é tarde para viver uma infância feliz.