Cadeiras Vazias

Carta

Gosto de te ler.  Gosto que escrevas bem. 

Os príncipes e as princesas fazem parte de um arquétipo de felicidade que nós comprámos, sem saber que o fazíamos, ainda muito em pequeninos, contribuindo para aquela coisa, medonha e grande, de que eu e tu também vivemos: a sociedade de consumo.

Os príncipes e princesas de verdade, davam-se mal, casavam contra vontade, serviam lógicas de poder e, segundo consta, lavavam-se pouco – um pesadelo. Por isso os únicos príncipes e princesas que interessam não existem. A injustiça da vida resolve muitos problemas!

Ainda acredito em coisas impossíveis. Mas sei precisamente qual é o lugar delas. 

Por isso vivo em paz com o que construí, com os meus sucessos e os meus fracassos, as minhas glórias e misérias (poucas em qualquer dos casos). E como um cavaleiro antigo, às vezes Quixote, às vezes Lancelot (tem dias), lá vou juntando alegria à minha vida, que é, de tudo, o que mais me move.

E a alegria faz-se exclusivamente de pessoas (é com elas que partilhamos as alegrias materiais, estéreis sozinhas), com as quais construímos laços, mais ou menos fortes.

Aprendi, no entanto, uma coisa, gastamos muito tempo em respostas de obrigação, na digestão de dúvidas, na procura de respostas ou insights que apenas encontram respondem no exercício da própria vida, e não, naquilo que podemos pensar dela.  Aqui consegui que a angústia deixasse de habitar-me, o que me comprou (consumo outra vez!) mais paz e me tranquiliza em relação ao futuro.

Há poucas coisas que são incontornáveis – a dor, a morte, a culpa – tudo o resto são escolhas que podemos conscientemente fazer. A alegria, a felicidade, a angústia, o prazer, a solidão etc, mas sobretudo o sofrimento, é uma questão de opção.

Comecei a querer escrever-te uma coisa simples, a descansar-te, mas a menina desata-me os dedos. (Concentro-me no essencial e avanço.)

Quero dizer-te de pragmático apenas isto. A vida ensinou-me muitas coisas, mas delas, a mais importante é esta: aproveita o dia, cada um dos teus dias, é lá que está a felicidade. Não nos planos longínquos, nas estratégias intrincadas ou na sedução vazia. A felicidade está dentro de ti, e por isso está lá todos os dias.

Ter-te encontrado é uma coisa boa. Mas não te conheço, nem tu a mim. Apenas apontamentos de um estranho rendez-vous num drive-in, um jantar de polvo e uma troca de textos, também estranha, em palpações, parece-me. Depois uma crónica de jornal, que é apenas uma, entre centenas das que escrevo sobre o que a vida me traz.

Não tenho objectivo nenhum, a não ser conhecer-te melhor; nem sentimento nenhum, para lá do prazer que me dá (deu) a tua companhia, o teu sorriso elegante, as tuas mãos de gestos contidos e agora, a forma preciosa como manejas as palavras. As paixões são coisas ou da química e do tempo. E penso que nenhum destes atributos mora ainda aqui.

Acabo a maçada neste parágrafo, dizendo-te que podes ler os meus textos e até provavelmente fazer parte de mais. É a vida que me inspira, o amor à vida e ao que ela nos dá (nem sempre bom mas nem por isso deixo de a amar) .

A única coisa que quero de ti agora é conhecer-te melhor. Penso sinceramente que isso me vai enriquecer e por isso vale a pena. Os nós, os poemas, as ilusões e os filmes de aventuras, como vimos antes são coisas quase impossíveis, por isso podemos ficar descansados.  

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