À espera do Império

Foi quando entrámos no Império que tudo começou. Nesse dia tinha tirado o carro debaixo das árvores, onde sempre está a estragar-se com ramos e folhas, para te ir buscar. Sei que desististe aí umas três vezes de me encontrar por isso eu insisti e desarrumei a rua para ir ao teu encontro.

Sabia onde exatamente onde estava o carro. O que é uma coisa rara porque normalmente esqueço sempre o sítio onde o deixo, tão espaçadas são as viagens que lhe faço. Estava encostado à calçada, bem arrumadinho, à porta de casa, de portas abertas. Felizmente a zona é muito calma, no início daquela rua com nome de médico de loucos das Avenidas Novas.

Meti-me lá dentro sem acender as luzes, cheirava a novo, o que nem era estranho nesse dia. Apesar de já ser antigo e ter transportado milhares de vezes os meus filhos e amigos para todo o lado, era a primeira vez que era mesmo meu. O carro era uma espécie de “tornas” de um divórcio mais ou menos amigável, mas que talvez me tenha servido de emenda, vamos ver.

São as formalidades que nos defendem, dizia-me ele muitas vezes. Admirei-o durante muito tempo e era provavelmente a única pessoa do mundo mais vaidosa que eu. Achava que podia ser meu irmão. Houve uma altura em que as pessoas que nos conheciam em conjunto diziam que éramos como irmãos.

Eu recordo-me que o achava muito inteligente e — já não sei se sem querer se de propósito —o mimetizava. Quando um dia ele deixou o negócio dos pombos-correio e ficou desamparado pela clique de interesseiros que antes o bajulava, juntei-o a mim nos negócios e foi a pior coisa que fiz na vida.

Os amigos devem servir apenas para serem amigos. O resto é sempre uma viagem a perder. Agora foi-se, mas ficou o carro que também há-de ir porque a minha cena é mesmo andar a pé.

Também me lembro do dia em que o fui buscar. Fui com ele a Santiago de Compostela. Benzê-lo. Esse dia também foi importante embora só hoje, muitos anos depois, perceba bem porquê.

Perdido nestas memórias desfiz o sinal e rumei à Alameda onde o passaporte de regresso te tinha acomodado aposentos. Tinhas estado muito tempo fora e as cidades em segunda mão são sempre mais cruéis para quem retorna, do que para quem chega de fresco. É o preço a pagar para voltar ao passado.

O lugar era-me familiar de outras aventuras, mas contigo não o reconheci. Encostei e esperei que aparecesses. Demoraste pouco. Passado uns momentos dobraste a esquina e imediatamente percebi o que me esperava. Que te esperava.

— Um porto é só aquilo que podemos encontrar, não é?

Pegaste num papel que estava preso no para-brisas do carro e perguntaste rindo o que é isto. E eu disse que o carro estava sempre parado que toda a gente devia pensar que não me fazia falta nenhuma e o queria vender.

Agarraste no anúncio e, com cuidado, acho que o dobraste em quatro, levaste-o ao caixote do lixo da esquina e nele o depositaste como se fosse uma carta à posta restante.

No mesmo instante o universo convergiu e percebi que tinhas chegado. Havia uma espécie de chamamento (com música e sorrisos) que me dizia para ir ter tempo contigo.

— A ver se os nossos encontros deixam de ser tão furtuitos, disseste. Entrego-me nas tuas mãos, retorqui – tenho muita vontade do que aí vem. Então, depois de uma pausa iluminaste o caminho e remataste,

— Espero que o tempo esteja sempre do nosso lado.

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